Até amanhã.


Falei de tudo quanto amei. / De coisas que te dou / para que tu as ames comigo: / a juventude, o vento e as areias. 

Eugénio de Andrade, Até Amanhã
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Mais memórias. As apresentações.

Chamo-me o nome que me pôs o meu avô, numa manhã de Outono, há mais coisa menos coisa vinte e quatro anos. Chamo-me o nome mais bonito que alguém me podia ter posto. O meu avô. Não há consenso sobre as razões de me chamar como me chamo. Chamo-me um único nome próprio. Duas sílabas bastaram. São sílabas claras e abertas. Gosto do nome que me puseram e estou convencida de que me assenta. Não me reconheceria com outro. Gosto deste.

Apresentações feitas. O blog.
É o segundo. Ao primeiro pus o nome de um sítio de que gostava e para onde corria sempre que podia fazer lá o que fazia no blog. Corria para o blog sempre que não podia fazê-lo nesse sítio. Escrever. Contar as coisas. Coisas muitas e coisas nenhumas.

Durante uma passeata lá para os lados do Alentejo dei de caras com um portão onde estavam inscritas algumas palavras bem encadeadas qual prosa poética. Assaltaram-me o espírito as “memórias que vestirei hoje” e as “memórias ainda por cumprir”. É disto que vai tratar este blog. Das memórias que todos os dias vestimos e das quais nos revestimos. Também daquelas que se hão-de cumprir nos dias demasiado ocupados para se existir.

Não podemos ter a certeza de nada.

Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida. 

José Luís Peixoto, Abraço