Tão verdade que dói. 1#

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Dormes tão sossegada sem saberes que há dias em que trocamos de lugares e sou eu a criança.

Corro em direcção ao teu quarto nestas noites em que o silêncio e o vazio se apoderam da casa e a casa se apodera de mim e é tudo tão negro, tão sozinho, tão longe.

Arranjo trabalho para migar este sufoco, mas a cabeça foge-me.

Fujo em direcção ao teu quarto e imagino-me a aninhar-me contigo na cama a choramingar de medo deste escuro ou das dores de crescer.

O que hás-de ser é o colo que tens para mim nestes dias cobardolas e medricas.

O futuro é um papão muito grande e o presente é o homem do saco que me há-de vir buscar se não fizer as coisas bem feitas. E há dias em que não me apetece comer a sopa, Aurora.

Há dias em que a sopa é ruim – estará azeda – e não cai bem. Mas depois o homem do saco, Aurora. E a sopa arrefece. E eu engulo colherada atrás de colherada e fico farta.

Ontem enquanto eu carregava no dispensador do teu creme de banho com uma mão, e te segurava só com a outra, tu (ao mesmo tempo) tentaste alcançar um brinquedo na água e escorregaste-me durante o banho. Bateste com a testa na borda da banheira. Choraste com lágrimas. Tu, que só choras com as vacinas. Eu afligi-me tanto que achei que morria. Num segundo era um banho de todos os dias e noutro todas as minhas seguranças e certezas se esvaíram com a água por aquele ralo da banheira. Toda eu, por aquele ralo. Direita ao esgoto.

Eu, mãe, a querer chamar pela minha mãe. Eu, mãe, a saber que nunca mais hei-de ser só filha. Eu, mãe, pequenina, pequenina, a suplicar que alguém me dê a mão para atravessar esta ponte que tenho medo de alturas. Eu, mãe, no arrastado segundo que demorou virar-te para mim, a fazer promessas para que não tivesses aberto nenhum lenho na testa. Eu, mãe, a agradecer não ver sangue. Eu, mãe, a fazer mais promessas para que não tivesses batido com o olho. Eu, mãe, a agradecer ver o resultado da pancada a aparecer no sobrolho enquanto te secava e te vestia qualquer coisa. Eu, mãe, a suplicar que o teu choro fosse da fome e do sono que já tinhas antes do banho. Eu, mãe, a tremer  enquanto punha uma pedra de gelo dentro de uma meia tua. Eu, mãe, a tremer mais porque tu não querias gelo na testa. Eu, mãe, com terror que tu adormecesses, apesar de serem horas de dormir. Eu, mãe, e a sensação de ser a pior mãe do mundo.

Já te disse que contigo nasceu um medo tão grande que às vezes me engole e me atira para o lado de lá?

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Meio ano de ti.

Prefácio

Quando soube de ti compreendi imediatamente no mais fundo e misterioso que existe no meu peito que só poderias vir a ser a menina encantadora que te vais revelando já com seis meses. Nesse lugar único de onde vão brotando sentimentos que nunca tinha conhecido veio também a quase certeza de que serias a Aurora que tanto desejei.

Amei-te desde o dia em que dois tracinhos me puseram na pista de uma gravidez. Enchi-me de alegria quando, à primeira ecografia, soube que estavas tão bem quanto era possível avaliar naquele momento. Não te conto da felicidade que senti quando a médica arriscou seres menina e, enfim, o confirmou. Nesse momento passei a chamar-te pelo nome que te queria por, contra todas as outras sugestões – haveria de ser inflexível, não poderias ser outra que não a minha Aurora.

Imediatamente passei a procurar em tudo significados – haveria de encontrar um livro infantil, uma ilustração ou uma música com o teu nome. Talvez encontrasse uma boneca que viesse a ser a tua melhor amiga.

E procurei. E procurei. E não havia. E não achei. E não agradava.

A verdade é que a história que procurava está por escrever – é a tua história. A música que um dia quis que te identificasse vai-se compondo dos sons que já emites, grande parte deles gargalhadas doces e contagiantes. A ilustração que quis emoldurar e pendurar na tua parede é uma obra incompleta, que o tempo se encarrega de ir pincelando dia após dia – e o teu cabelo cresce, e o teu sorriso ganha expressão, e os teus olhos uma doçura sem fim; as tuas mãos uma destreza incrível, o teu feitio traços tão únicos que chegam a ser comoventes.

Ontem fizeste seis meses e eu entendi que terei que juntar estas memórias deste teu início de vida; memórias que tu não terás e que eu vivo com medo de perder.

Há neste conjunto de recordações tudo daquilo que sou desde o primeiro momento em que soube de ti. E sou tão diferente – melhor, espero.

aurora

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”