Sem Título

Let her sleep / For when she wakes, / She will move mountains.

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Que sim.

Tesouro,

Escrevo para não me esquecer do cheiro que fica na casa depois do teu banho; escrevo para um dia me cobrares a tua colónia – uso e abuso dela todos os dias de manhã;

Escrevo para te dizer que há momentos – como os que partilhaste hoje com os teus bisavós – que mereciam de tal forma ficar registados que não me atrevo sequer a perturbá-los com um flash. Tenho registado momentos especiais mas é impossível guardar momentos únicos: conto que cresças com o tempo de os recordares por e para ti.

Escrevo para te lembrar que me peguntes pelos dias de que não terás memórias ainda que eu acredite profundamente que estes dias te transformam e te constroem. Uns atrás dos outros.

Escrevo para te contar que só hoje me deste uma noite pior: quase oito meses e meio depois. Uma noite de nariz ranhoso que não nos deixou descansar como de costume. O que posso pedir mais?

Saúde. Muita saúde. Que nos fiquemos por diarreias e narizes ranhosos porque não sei como se resiste ao sofrimento de um filho.

Estás numa fase maravilhosa. Finalmente sosseguei em mim as saudades desmedidas e angustiantes dos primeiros tempos – foi tudo tão novo e tão bom.

A bebé menina que eras dá lugar a uma boneca maravilhosa todas as manhãs: a tua energia e curiosidade são comoventes e eu consigo, agora melhor, deixar que o tempo passe sem sentir que estou a perder alguma coisa mas que ganho incomparavelmente mais.

O tempo é tramado, minha pequena. E não pára, graças a Deus.

Agora, mais do que nunca, passas o tempo a acenar que sim com a cabeça. Aprendeste o sim antes do não e é com o sim que negas a fruta antes da sopa. É com o sim que respondes às nossas perguntas mais tolas. Aproveito essa tua resposta universal para te perguntar vezes sem contas se nos amas e se acreditas na nossa parentalidade insegura e inexperiente. Como se soubesse das tuas respostas…

Quero ensinar-te a gratidão que tenho por tudo o que temos e somos. Às vezes acho que nos foste dada segundo a medida das nossas capacidades – isto para o bem e para o mal – talvez merecessemos tão boa filha, talvez não fossemos capazes de mais se assim não fosse(s). Talvez.

Mas o que importa é que começaste por dizer que sim e enquanto não aprenderes o não hei-de perguntar-te muitas vezes se nos amas.

Escrevo para dizer à menina de um ano, e à de cinco prestes a entrar na escola, e à adolescente que hás-de ser, e à crescida com os vinte e sete anos que estou prestes a cumprir que és a minha vida antes de tudo. Que és a nossa vida, sem dúvida.

Escrevo para te prometer o mundo. Aceno-te que sim com a cabeça.

Estaremos para sempre contigo.

Achamos que o pai passa por aqui em noites de urgência à procura de algumas palavras.

Hoje queremos dizer-lhe que o amamos muito. E que temos orgulho. E saudades.

Domingo fazes oito meses. Nestas últimas semanas nasceram-te dois dentes incisivos marotos e começaste na creche.

Imprevistos de última hora levaram-nos a confiar-te num sitio que não era a primeira opção – mas sabes, parece que há imprevistos que acontecem porque têm mesmo que se encontrar determinados caminhos. Estamos contentes. Tu ficas tranquila embora mostres bem mais alegria na hora de voltarmos a casa.

Estás cada vez mais riquinha – bonita, doce e marota. Todos os dias se apuram em ti traços maravilhosos.

E o tempo a passar a correr. Parece que foi há uma infinidade de tempo que nasceste e ao mesmo tempo não sei para onde foi esse tempo todo.

Continuo a sofrer de momentos de verdadeira perplexidade sem acreditar bem que sonho acordada como se vivesse a dormir – uma filha, tenho uma filha, tenho-te filha, repito até à exaustão. Eu, tão pequena e tão filha ainda, uma filha.

Os dias são tão mas tão melhores depois de ti. Nada passou a correr pior depois de ti. As “doidas doidas doidas [das] galinhas” tomaram o lugar de pensamentos mais tristes, das organizações mentais ou das revisões de última hora de manhã.

Tarefas simples, não urgentes, ganharam estatuto de inadiáveis. Assuntos importantes, obrigações e trabalhos adiam-se e trocam-se por colos e palminhas e eternidades para meia dúzia de colheres de sopa. E a vida vai seguindo neste desequilíbrio funcional.

Não dispenso a tua companhia e os sete minutos que demoramos até à creche – és uma dose de energia matinal incrível.

O coração aperta-se, um-dois-três e estás no colo da educadora, dizes “xau”, resmungas um bocadinho e enquanto te espantas com o choro dos outros meninos eu escapo-me, sorrateira, não sem antes te entregar à “Mãezinha do Céu”.

Grande parte da nossa tranquilidade está na certeza de que ficas nas melhores mãos.

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