Eu não diria melhor #2

Um filho, um livro, um disco, uma árvore,
Dois amigos, dois umbigos unidos num chão de mármore,
Quatro tempos, quatro ventos, dentro de quatro paredes,
Debaixo de um céu de estrelas a nossa cama de rede.

Quero uma casa no campo como elis regina,
Plantar os discos,
Os livros e quem sabe uma menina,
Por mim até podem ser mais,
Um amor como os meus pais,
Os dias como os demais,
Sem serem todos iguais.

Casa no campo com a porta sempre aberta para deixar entrar amigos,
Partir à descoberta,
Ter a minha cama grande com a colcha predileta e um cão desobediente dorme em cima da coberta.
Quero uma casa completa com um pedaço de terra,
E com o espaço quero o tempo para adormecer na relva,
Longe da selva de cimento,
Eu acrescento que quero cultivar mais do que mero conhecimento,
Quero uma horta do outro lado da porta e quero a sorte de estar pronta quando a morte me colher,
Quero uma porta do outro lado da morte,
Ter porte de mulher forte quando a vida me escolher.
Quero uma casa no campo que cheire a flores e frutos,
A gomas e sugus,
A doces e sumos,
Cozinhar para quem quer comer,
Comer como sei viver,
Com apetite já disse que não quero emagrecer.
Comer de colher sopa,
Fazer pão,
Estender a roupa,
Eu faço pouco das bocas que me dizem para crescer,
Eu quero rasgar janelas nas paredes cujas pedras eu carregar com as mãos que uso para escrever.
Casa no campo com lareira e fogo brando,
Que ilumine todo o ano,
O sorriso de quem amo,
Quero uma casa no campo que pode ser na cidade,
Mas tem de ser de verdade,
Mesmo não tendo morada…

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Blame it on Daddy #1

4:08 am

Há quase 38 semanas a dormir mal…

Apetece-me uma noite de barriga para baixo.

Mas faço o quê com as saudades que já tenho da tua companhia permanente, de te saber o mais segura que consigo, de tudo me parecer bem mais simples e bem mais possível do que no tempo sem ti?

E quantas vezes me pergunto se alguma vez existiu outro tempo que não este já tão contigo… de noites mal dormidas, de gestos rotineiros forçosamente lentificados.

No dia em que soube de ti aconteceu magia. Já não dormi tranquila. Naquele estado de semi-vigília durante o sono para onde as preocupações nos transportam, deitava-me de lado quase instintivamente, apesar de saber racionalmente que qualquer posição seria inofensiva para os teus grandiosos milímetros de gente.

Quando soube de ti experimentei um sentimento novo: não foi um medo imenso, não foi uma alegria desmedida, nem sequer foi algo intermédio. Foi bom e indescritível. Foi qualquer coisa diferente de tudo o que sentira até então.

Não foi deste mundo.

O teu pai estava de Urgência e eu não consegui esperar por ele. Não consegui depois ligar-lhe. Tremia quando lhe enviei a fotografia dos traços que já nos estavam a mudar a vida.

Ainda não te pus os olhos em cima mas basta-me viver esta transcendência de termos concebido alguém que sabemos único e irrepetível em traços e feitios. É já assoberbante e arrebatador, quem quer que venhas a ser.

Hoje mudamos de ano. Virás, quase de certeza, em 2014 (a menos que decidas surpreender-nos nas próximas horas…) e quando as palavras já não tiverem segredos para ti hás-de ler estas linhas e saber que foste o melhor que 2013 nos trouxe.

O Natal há-de acontecer, mais cedo ou mais tarde, no nosso Presépio “to be”. E tu, como o Menino, também hás-de vir salvar-nos de alguma coisa. Já não somos os mesmos mas seremos melhores.

E embora lá no fundo saiba que não mais terei as noites tranquilas de outrora…

No que respeita a estas: podemos sempre culpar o pai! Porque é grande e ocupa dois terços da cama, e porque é muito quente e temos calor, e porque se mexe muito. E ressona um bocadinho. Pronto. Eu acho que ele não se importa.

We’ll blame it on daddy.

Parabéns, Papá.

Aurorinha,
O teu pai é muito especial.
Hoje faz 30 anos e apesar de a vida não lhe sorrir todos os dias, hoje fez por se lembrar do essencial: temos-te a ti e ele quer-nos com ele naquela curta hora de jantar que vai intervalar dois trabalhos.
Em dias como hoje, que não podem ser totalmente felizes porque trazemos o coração apertado, porque entrou areia na engrenagem, porque tarda o dia em que vamos poder respirar de alívio, preciso de lhe dizer mais vezes e mais alto que não o quereríamos outro nem diferente, nem noutro sítio qualquer que não este, nem com outro plano diferente daquele que encetamos.
Todos os dias gostamos mais dele e tenho a certeza de que te vais encher de orgulho do pai que te arranjei. Vais apaixonar-te por ele como eu e não vais duvidar disso mesmo quando não lhe entenderes as razões todas.
E sabes que mais? A julgar pelo tamanho da minha barriga tu vens carregada de esperança.
O presente de hoje és tu, meu pequeno Amanhecer. Tu e os teus dois pequenos braços que vêm fechar um abraço onde ele nunca vai estar sozinho.
Nós estamos doidos para que esse Natal aconteça. E tu não tardas.
Parabéns, Papá.

“People are just as happy as they make up their minds to be.” #2

É possível ser feliz em 2013?

Ponto prévio antes de o leitor se debruçar sobre as linhas que se seguem: terminei o artigo anterior prometendo que neste seguiria o mesmo tema. Por erro de cálculo, escapou-me que este era o último artigo antes da quadra de Natal e ano novo. Há algo sobre isto que gostava de partilhar consigo. Por isso, e perdoem-me, voltarei ao emprego no próximo texto. O assunto nesta prosa é outro: a felicidade.

Talvez o tempo (de transformação) e o lugar (Portugal) sejam estranhos para se falar de felicidade. Talvez seja precisamente por ser estranho que é tão importante falar dela. Pela simples razão de que a felicidade é um poderoso motor de transformação social e individual.

Objectivo tão antigo quanto a natureza humana, a felicidade entrou no discurso político através de um dos mais extraordinários textos da modernidade: a Declaração da Independência Americana. Pela mão de Thomas Jefferson, ficamos a saber com desarmante simplicidade que há direitos de todos os tempos, que não são abalados nem perante a conjuntura nem perante as formas de governo: são eles, “a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. É nesse texto que encontramos a centralidade oferecida à felicidade que, por ser um direito radicalmente natural e radicalmente individual, galga o plano pessoal e ganha materialização no plano político-constitucional.

Isto, contudo, não faz da felicidade um lugar ou uma condição. Porque a felicidade é intrinsecamente um estado de alma, não se racionaliza. Por isso mesmo, podemos dizer com algum grau de certeza que é impossível balizar a felicidade: para alguns será um bom emprego, uma boa casa e um automóvel de alta cilindrada. Para outros, a felicidade está nas memórias de vitórias em torneios de hóquei na escola, nas namoradas(os), nas saídas com os amigos, nas reuniões de família ou nas férias de Verão. Para outros, está em qualquer no meio disto – ou para além disto.

Mas o meu ponto é menos o que é a felicidade e mais qual pode ser a medida da nossa felicidade nos tempos que vivemos. Repare-se: 2012 foi um ano duro de mais e longo de mais, fomos levados a situações que testaram os limites da nossa resistência e da nossa razão. Ainda assim, fomos capazes de dobrar tormentas, de vencer obstáculos. Juntos fomos capazes de resistir onde muitos previam a desistência, de vencer onde muitos vaticinavam a derrota. Pela frente, em 2013, temos um caminho difícil, que não está livre de adversidades. Isto não significa, contudo, que tenhamos justificação para abandonar os pressupostos da esperança. Ou que possamos apenas encarar a Felicidade como uma felicidade por aquisição, materialista. Aplicando os princípios da ciência económica, muitos dos elementos da sociedade, e o próprio Estado em primeiríssimo lugar, foram tendo custos inversamente proporcionais às utilidades marginais decorrentes dos fenómenos de aquisição em que, erradamente, assentaram os pressupostos dessa “busca da felicidade”.

Vivemos um tempo diferente. Somos mais pobres, é um facto – e seremos mais pobres durante um tempo que muitos pressupõem longo. Mas isto não é uma fatalidade nem representa a morte da felicidade em si mesma; nem nos impede de continuar a busca por este sentimento que dá ânimo e vida aos homens de sempre.

Todos temos de reaprender a ser felizes. A começar pelo Estado: precisamos de um Estado menos soberano e despótico na aleatoriedade das suas decisões; precisamos de um Estado que cumpra a sua palavra, que seja “pessoa de bem”; precisamos de um Estado que vire a sua agenda política para as pessoas. Falo de um Estado menos viciado no hardware e mais focado no software; falo do Estado próximo do cidadão, personalista, que olha para cada cidadão como uma pessoa e não como um número. Aos cidadãos cabe também um papel fulcral: saber procurar a felicidade nas coisas mais simples da vida.

Há um provérbio chinês que descreve de forma sublime o que é a felicidade: é ter alguém para amar, alguma coisa para fazer e algo em que acreditar. Que este Natal nos ofereça a capacidade de ultrapassar as nossas divergências e nos dê a oportunidade de encontrar a medida da nossa felicidade. Afinal é muito possível que praticamente todos tenhamos alguém para amar, algo para fazer e algo em que acreditar.

Daqui: http://www.ionline.pt/opiniao/possivel-ser-feliz-2013

Happiness

Dos dias.

Explicação do sorriso

“A mãe disse-lhe escreve-me / De lá de longe para onde vais / E ela disse não é longe casar / E a mãe sorria cega de dor / E parecia de deslumbramento.”

Mais dor menos dor todos os dias vão bater naquele Domingo em que eles ficaram parados a acenar tristeza sob o candeeiro, enquanto a marcha atrás se dava e eu, toda uma angústia inexplicável, chorava sem esforço e me afastava, para nunca mais ser tudo igual.

A véspera quis-se o primeiro dia das nossas vidas e foi. Para o bem e para o mal, houve uma página que se escreveu e outra que se virou repleta de esperanças várias, planos e expectativas. Mas também se rasgou um cordão onde corriam certas as certezas do ninho.

A vida começou a doer-me aos vinte e cinco e, ciente que não mais deixará de pesar-me, mais me doem os dias que vão passando irreversíveis, irreparáveis e ausentes desta agonia.

Amanhã será outro  dia. E temos sempre amanhã.

De sermos “seres olhados”.

Teoria da Presença de Deus

Somos seres olhados 

Quando os nossos braços ensaiarem um gesto 

fora do dia-a-dia ou não seguirem 

a marca deixada pelas rodas dos carros 

ao longo da vereda marginada de choupos 

na manhã inocente ou na complexa tarde 

repetiremos para nós próprios 

que somos seres olhados 


E haverá nos gestos que nos representam 

a unidade de uma nota de violoncelo 

E onde quer que estejamos será sempre um terraço a meia altura 

com os ao longe por muito tempo estudados 

perfis do monte mário ou de qualquer outro monte 

o melhor sítio para saber qualquer coisa da vida.

Ruy Belo, in Aquele Grande Rio Eufrates

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Ontem.

MEC – Público

Nada me assusta mais do que a ideia de te perder, de me perder. Nunca eu sou tu e tu és eu; onde estás eu estou e em todas as coisas me acho disperso; seja o que for que encontres é a mim que encontras e ao encontrares-me encontras-te a ti mesmo fez tanto sentido como agora. O medo agarra-me à cama, à cadeira, ao chão. A cabeça precisa de se esquecer do medo que existe para se ir vivendo dando graças, muitas graças. Nada me assusta mais.