Os teus cinco meses.

Escrevo para não me esquecer.

Escrevo para me lembrar de como foram preciosos estes meses.

Não fossem uns dias de férias a seguir à licença e hoje já teria regressado ao trabalho.

Hoje, enquanto te dava a sopa, e naquela fase – muitas vezes logo a seguir à quarta ou quinta colherada – em que ficas com a boca aberta mas cheia de sopa e já não engoles e ficas ali a engonhar e a engonhar e a engonhar concluí que é isso que estou a fazer com as papas em que está mastigado o meu coração. Não sei como vou resistir a deixar-te todos os dias. A certeza de estar a aproveitar-te o mais que posso não diminui em nada esta angústia.

Já tentei falar-te do tamanho deste amor. Se for rever outros posts concluo que me repito, mas este amor não tem tamanho mesurável, não tem palavras que o traduzam verdadeiramente, não me cabe no peito e ao mesmo tempo engole-me como um buraco negro.

Mas depois o tempo pára.

O tempo pára quando te vejo a dormir tranquila. Os traços da perfeição nas tuas maçãs do rosto, na tua boca, nos teus olhos, no teu queixo doce. Os teus suspiros. Dormes tranquila e eu posso sossegar o coração. Estás bem.

As histórias do mundo não são sempre felizes, meu amor. Há pais que perdem meninos para as doenças, para os azares, para sabe-se lá o quê que não se compreende. Contigo nasceram o medo e o pavor de todas essas coisas. Medos difíceis de gerir, nós na garganta quando uma história dessas se atravessa num qualquer momento do nosso dia.

Estás tão extraordinariamente bonita.

Já te sentas com apoio, é na boca que descobres o que já não tem segredos para os teus olhos e para as tuas mãos, ris-te muito, ris-te muito para a tua avó Fernanda, és um peixinho dentro de água na hora do banho. Enches o meu dia de certezas e de anseios. És já uma companheira. Gostas de beijos nos pés, na barriga e no pescoço. Encolhes-te de cócegas enquanto soltas gargalhadas. As noites continuam completas e os despertares os mais maravilhosos. Não há sono ou má disposição matutinos que resistam aos teus olhos e sorriso, abertos e vivos, cheios de propósitos. Há em ti magia, sobrenaturalidade pela manhã. Olho-te, incrédula. Como naquele filme em que todos os dias a personagem acorda para a mesma situação, repetida mas nova.

Acordo. Levanto-me. Normalmente tenho que tirar o teu pai da cama à força (das palavras). Vou à casa de banho. No caminho para a cozinho entreabro a porta do teu quarto – ainda dormes, não estás enfiada debaixo dos cobertores até à testa ou mais ainda – encosto a porta, acho que ainda durmo. Aquecemos o leite, reforçamos o café. Preparo-te o biberão que só vais beber pela metade – hei-de ter que insistir toda a manhã para ires bebendo o resto até à hora da sopa. Estou acordada. Volto ao teu quarto. À medida que abro a porta revela-se um quarto de bebé cheio de pormenores que podiam ter sido meus. Há um quarto de bebé neste apartamento que habitamos há meia dúzia de dias desde que casámos. Espera. Passou um ano e meio. Os pormenores do quarto são mesmo meus. Há uma bebé no quarto, letras alinhadas na cómoda das roupinhas de gavetas forradas a papel de embrulho revelam-me que se chama Aurora. Aurora. Lembro-me de um dia, num centro comercial do norte, ter feito o teu pai assinar um compromisso de chamar Aurora a uma filha – tão longe estávamos da ideia de filhos. Aurora. Um nome que nos enche a boca e transborda e se projecta. AU-RO-RA. Repito. AU-RO-RA. Abro ligeiramente a cortina para deixar entrar a luz.

Essa luz pousa-se sem vergonha nas formas tão desenhadas do teu rosto. Essa luz revela-te e eu aprecio-te, ainda antes de te dar o biberão a beber porque o bebes ligeiramente melhor se a dormir. Quando acordas o teu quarto é todo um mundo novo e as tuas mãos pequenas já tiram o biberão da boca cheias de certezas e de quereres. É para os pormenores do teu quarto que queres olhar. Beber o leite pode adiar-se. Há um pom-pom de papel que sobrou do nosso casamento pendurado no teu candeeiro. As tuas fotografias alinham-se na parede à espera de moduras brancas. Do mobile do teu berço dependuram-se cinco passarinhos feitos a muitas mãos familiares. Da tua cómoda vela-te a Nossa Senhora de Fátima que me comprou a minha bisavó e que recuperei para ti. Há ainda uma Nossa Senhora do Ó que a tua avó Fernanda me ofereceu ainda te esperávamos. Há a colcha cheia de cores que ela te fez. Há o senhor Coelho, miminho indispensável na hora de dormir. Há o hipopótamo Chico, o pato Chico, o Zézinho.

A tua bisavó Lourdes tratou de baptizar todos os bonecos da Chicco de Chicos. O Zézinho escapa, não é da Chicco, baptizei-o eu.

A tua bisavó Lourdes lida contigo como se tivesse acabado de nos criar ainda ontem. A tua chupeta chama-se “pepê” porque ela entendeu que seria assim. Diz-te que quando fores maior vais tirar os ovos aos “pipis”.

Estão todos tão melhores depois de ti. Tão mais bonitos, tão mais novos, tão mais felizes. Não me lembro da última vez em que disseram alguma coisa como “isto agora qualquer hora é boa”, deixas recorrentes a propósito do avançar da idade.

Não me surpreende a paixão da tua avó Fernanda por ti. Já a esperava. Só confirma que antes de ser a melhor avó do mundo é a melhor mãe também. Tenho tão pouco jeito para lho dizer e demonstrar. Conto que ela o saiba. Depois de ti é inevitável ir fazendo o exercício de me colocar no lugar dela em inúmeras situações. Penso muitas vezes nela com a minha idade quando me teve. O que teria feito quando eu ficava com a boca cheia de sopa como tu, se lhe teria dado boas noites também, como se safava connosco pequenos, sem o teu avô cá. Olho para a forma como dá e faz tudo o que tem e pode e lembro-me que esta vida é um ciclo bonito, que a tua bisavó muito provavelmente fez o mesmo por ela e tenho a certeza que o farei por ti também.

Surpreende-me e enche-me de alegria o teu avô Zé. Perde-se e revela-se contigo. Rejuvenesceu 20 anos.

Sei que somos uns para os outros os melhores presentes, seja em que circunstância ou comemoração for.

Rezo para que a vida nos dê oportunidade de nos gozarmos uns aos outros durante muito tempo. Quero muito os meus avós comigo, os teus bisavós e os teus avós contigo. Quero que cresças nessa riqueza que é tê-los. Eles são os melhores lugares, as melhores viagens, o melhor livro, os melhores brinquedos, o melhor restaurante, as melhores histórias.

Vocês são presentes uns para os outros.

A mim basta-me olhar-vos, grata e silenciosa, sorrateiramente, da soleira da porta.

Olhar-vos. A vocês e à magia com que se desembrulham.

5 MESES

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Eu não diria melhor #2

Um filho, um livro, um disco, uma árvore,
Dois amigos, dois umbigos unidos num chão de mármore,
Quatro tempos, quatro ventos, dentro de quatro paredes,
Debaixo de um céu de estrelas a nossa cama de rede.

Quero uma casa no campo como elis regina,
Plantar os discos,
Os livros e quem sabe uma menina,
Por mim até podem ser mais,
Um amor como os meus pais,
Os dias como os demais,
Sem serem todos iguais.

Casa no campo com a porta sempre aberta para deixar entrar amigos,
Partir à descoberta,
Ter a minha cama grande com a colcha predileta e um cão desobediente dorme em cima da coberta.
Quero uma casa completa com um pedaço de terra,
E com o espaço quero o tempo para adormecer na relva,
Longe da selva de cimento,
Eu acrescento que quero cultivar mais do que mero conhecimento,
Quero uma horta do outro lado da porta e quero a sorte de estar pronta quando a morte me colher,
Quero uma porta do outro lado da morte,
Ter porte de mulher forte quando a vida me escolher.
Quero uma casa no campo que cheire a flores e frutos,
A gomas e sugus,
A doces e sumos,
Cozinhar para quem quer comer,
Comer como sei viver,
Com apetite já disse que não quero emagrecer.
Comer de colher sopa,
Fazer pão,
Estender a roupa,
Eu faço pouco das bocas que me dizem para crescer,
Eu quero rasgar janelas nas paredes cujas pedras eu carregar com as mãos que uso para escrever.
Casa no campo com lareira e fogo brando,
Que ilumine todo o ano,
O sorriso de quem amo,
Quero uma casa no campo que pode ser na cidade,
Mas tem de ser de verdade,
Mesmo não tendo morada…

Coisas que te vou querer contar e das quais não me posso esquecer #2

Às 39 semanas e 2 dias eu (e tu) e o teu pai fomos ao cinema. O filme não prometia mais do que entretenimento rápido para uma tarde incrivelmente desocupada e por isso pouco planeada. Mas revelou-se.
A vida secreta de Walter Mitty fala de um homem que passa a vida a sonhar acordado. Para fugir ao tédio, ao vazio e à mesmice do quotidiano, entrega-se a devaneios que o levam a cenários de aventura e romance onde pode ser quem quiser. Mas a sua tranquilidade é posta em causa quando o seu posto de trabalho é ameaçado e ele não tem alternativa senão descer das nuvens e enfrentar os duros contornos da realidade. Mais do que uma mera transição ou mudança de postura, a atitude de Mitty será o início de toda uma nova forma de ver o mundo, construída ao longo de uma jornada de viagens incríveis e momentos de auto-descoberta que o levarão mais longe do que alguma vez poderia imaginar.

http://cinecartaz.publico.pt/Filme/327458_a-vida-secreta-de-walter-mitty

E acaba com esta música em que me é impossível não ler sinais.

There’s a rhythm in rush these days
Where the lights don’t move and the colors don’t fade
Leaves you empty with nothing but dreams
In a world gone shallow
In a world gone lean
Sometimes there’s things a man cannot know
Gears won’t turn and the leaves won’t grow
There’s no place to run and no gasoline
Engine won’t turn
And the train won’t leave
Engines won’t turn and the train won’t leave
I will stay with you tonight
Hold you close ‘til the morning light
In the morning watch a new day rise
We’ll do whatever just to stay alive
We’ll do whatever just to stay alive
Well the way I feel is the way I write
It isn’t like the thoughts of the man who lies
There is a truth and it’s on our side
Dawn is coming
Open your eyes
Look into the sun as the new days rise
And I will wait for you tonight
You’re here forever and you’re by my side
I’ve been waiting all my life
To feel your heart as it’s keeping time
We’ll do whatever just to stay alive
Dawn is coming
Open your eyes
Dawn is coming
Open your eyes
Dawn is coming
Open your eyes
Dawn is coming
Open your eyes
Look into the sun as the new days rise
There’s a rhythm in rush these days
Where the lights don’t move and the colors don’t fade
Leaves you empty with nothing but dreams
In a world gone shallow
In a world gone lean
But there is a truth and it’s on our side
Dawn is coming open your eyes
Look into the sun as a new days rise

 

“Dawn”: verb; noun: 

  • the first appearance of light in the sky before sunrise
  • the beginning of a phenomenon or period of time, especially one perceived as auspicious

Em Português: alvorecer, despontar, raiar, começar a aparecer, amanhecer, madrugada, aurora, alvorada…

DAWN is coming open your eyes / Look into the sun as new days rise.

Blame it on Daddy #1

4:08 am

Há quase 38 semanas a dormir mal…

Apetece-me uma noite de barriga para baixo.

Mas faço o quê com as saudades que já tenho da tua companhia permanente, de te saber o mais segura que consigo, de tudo me parecer bem mais simples e bem mais possível do que no tempo sem ti?

E quantas vezes me pergunto se alguma vez existiu outro tempo que não este já tão contigo… de noites mal dormidas, de gestos rotineiros forçosamente lentificados.

No dia em que soube de ti aconteceu magia. Já não dormi tranquila. Naquele estado de semi-vigília durante o sono para onde as preocupações nos transportam, deitava-me de lado quase instintivamente, apesar de saber racionalmente que qualquer posição seria inofensiva para os teus grandiosos milímetros de gente.

Quando soube de ti experimentei um sentimento novo: não foi um medo imenso, não foi uma alegria desmedida, nem sequer foi algo intermédio. Foi bom e indescritível. Foi qualquer coisa diferente de tudo o que sentira até então.

Não foi deste mundo.

O teu pai estava de Urgência e eu não consegui esperar por ele. Não consegui depois ligar-lhe. Tremia quando lhe enviei a fotografia dos traços que já nos estavam a mudar a vida.

Ainda não te pus os olhos em cima mas basta-me viver esta transcendência de termos concebido alguém que sabemos único e irrepetível em traços e feitios. É já assoberbante e arrebatador, quem quer que venhas a ser.

Hoje mudamos de ano. Virás, quase de certeza, em 2014 (a menos que decidas surpreender-nos nas próximas horas…) e quando as palavras já não tiverem segredos para ti hás-de ler estas linhas e saber que foste o melhor que 2013 nos trouxe.

O Natal há-de acontecer, mais cedo ou mais tarde, no nosso Presépio “to be”. E tu, como o Menino, também hás-de vir salvar-nos de alguma coisa. Já não somos os mesmos mas seremos melhores.

E embora lá no fundo saiba que não mais terei as noites tranquilas de outrora…

No que respeita a estas: podemos sempre culpar o pai! Porque é grande e ocupa dois terços da cama, e porque é muito quente e temos calor, e porque se mexe muito. E ressona um bocadinho. Pronto. Eu acho que ele não se importa.

We’ll blame it on daddy.

Parabéns, Papá.

Aurorinha,
O teu pai é muito especial.
Hoje faz 30 anos e apesar de a vida não lhe sorrir todos os dias, hoje fez por se lembrar do essencial: temos-te a ti e ele quer-nos com ele naquela curta hora de jantar que vai intervalar dois trabalhos.
Em dias como hoje, que não podem ser totalmente felizes porque trazemos o coração apertado, porque entrou areia na engrenagem, porque tarda o dia em que vamos poder respirar de alívio, preciso de lhe dizer mais vezes e mais alto que não o quereríamos outro nem diferente, nem noutro sítio qualquer que não este, nem com outro plano diferente daquele que encetamos.
Todos os dias gostamos mais dele e tenho a certeza de que te vais encher de orgulho do pai que te arranjei. Vais apaixonar-te por ele como eu e não vais duvidar disso mesmo quando não lhe entenderes as razões todas.
E sabes que mais? A julgar pelo tamanho da minha barriga tu vens carregada de esperança.
O presente de hoje és tu, meu pequeno Amanhecer. Tu e os teus dois pequenos braços que vêm fechar um abraço onde ele nunca vai estar sozinho.
Nós estamos doidos para que esse Natal aconteça. E tu não tardas.
Parabéns, Papá.