aurora

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”

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Lemas para a tua vida #4

Menina assenta o passo / sem medo ou manha, / ou muito te passa da vida. / Tem que a ver quem faça / o que muito queira. / Caminha sem falsa fascinação. / O teu coração / ainda pára, / forçando a apatia p’lo medo de dançar. / Não se avista um dia / em que o ego não destrate / uma mais bela parte / escondida em ti. / Menina sê quem passa p’ra lá da ideia. / Quem muito se pensa fatiga. / Nem vais ver quem são, / seus olhos no chão, / os que andam p’ra ver-te vencida a ti. / O teu coração / sem querer dispara / força e simpatia ao Ser que te vê dançar. / Vai chegar o dia em que o medo não faz parte / e, por muito que tarde, esse dia é teu. / Desfaz o Nó, / destrava o pé, / desmancha a traça e avança. / chocalha o chão, / esquece os que estão, / rasga o marasmo em ti mesma. / Vê corações, / na cara que pões, / vira do avesso esse enguiço. / Desamordaça a dança pra te convencer. / O teu coração / sem querer dispara / força e simpatia ao Ser que te vê dançar. / O teu coração ainda pára, / forçando a apatia p’lo medo de dançar.

O título não é importante aqui #2

Na noite de Natal a minha avó perguntou-me se eu estava a tirar fotografias “para não te esqueceres dos velhinhos?”. O meu coração mirrou, abriu-se um buraco negro no meu peito. Acho que é mesmo isso. Qualquer coisa que aconteça pode acontecer pela última vez mesmo que eu não queira ver este filme tão cedo. E é isso que me consome verdadeiramente.

O título não é importante aqui #1

Eu escolhi-te naquele dia em que tu estavas a mandar bolas de basquetebol ao cesto nos campos da secundária. Nunca tinha falado contigo. Eras bem parecido. Sabia o teu nome (por acaso) e o suficiente para acreditar que eras bom. Escolhi-te há dez anos por te achar interessante, trabalhador, honesto, um pouco ingénuo, bem intencionado. Na altura ficava-te bem o curso em que tinhas entrado, eras de perto e responsável. As pessoas na escola estimavam-te, eras querido e admirado por quem interessava. Eras tão certinho e eras o que eu queria para mim. Consegui o teu número, mandei-te uma sms – com as letras contadas porque estávamos no tempo em que as sms’s não eram grátis – e um assunto irrelevante e começámos a trocar e-mails que eu escrevia em casa, no word, guardava em diskets e enviava dos computadores da biblioteca da escola. Ao segundo e-mail mandaste-me um poema, que ainda é um dos meus favoritos, e eu rendi-me ao atrevimento do gesto – falava de amor, mas não de um amor qualquer, não de um amor fugaz, mas de um amor que dura até um dia quando a chuva secar na memória, quando o inverno for / tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada / de um velho.

Amadurecidas, as minhas expectativas hoje são as de há dez anos: a vida pacata, inteira de confiança, a saber que posso entregar o meu dia sem medos, sem desconfianças, sem mentiras, sem traições. Não quero perder a  brandura do tempo em que te escolhi, sem arrebatamentos de paixão nem juras de amor eterno.

Só tens que ser o meu melhor amigo – o meu melhor amigo sem segredos, o meu melhor amigo sem mentiras, o meu melhor amigo que confia, o meu melhor amigo que não ralha, o meu melhor amigo que não ofende gratuitamente, o meu melhor amigo que escuta a minha opinião, o meu melhor amigo que vai por mim, o meu melhor amigo que atende aos meus sonhos, o meu melhor amigo que me ajuda, o meu melhor amigo que pensa em mim primeiro, o meu melhor amigo que pensa antes de falar.

É difícil mas foi por isso que te escolhi a ti. Por te saber capaz.

Amo-te.

Ainda da velhice.

Recupero este vídeo para contar uma cena muito triste a que assisti há uns dias.

A velhice em questão era uma senhora dos seus setenta e muitos, oitenta anos. Estava sentada numa cadeira de rodas à espera na urgência básica. Tinham-lhe atribuído a cor amarela e, pelo que fui percebendo, as suas queixas eram sobretudo do foro respiratório. Estava magrinha e tinha ar de campo. Mas de campo sofrido.
Ninguém teria reparado naquela velhice encostada a um canto não fora ter entrado, de rompante, uma juventude, de seus quarentas, pelas portas da urgência.
Não se ouviu um então como é que estás, ouviu-se antes um chorrilho de impropérios que incomodaram todos quantos assistiam ao infeliz espectáculo. Em momento algum aquela filha pronunciou uma palavra de preocupação ou cuidado por aquela mãe. Perguntou-lhe pela filha C. que lhe andava a comer a reforma, fez-lhe saber que ela – a mãe – não poderia vir a ser mais uma preocupação a juntar às que já tinha em casa, entre outras barbaridades que revestiram de angústia e vergonha a cara da pobre senhora, a mãe. Esta alternava o olhar entre o chão e o vazio mais longe que conseguia alcançar.

Eu cá não consegui não me revoltar.

Pouco se fala da violência contra idosos – embora já haja um dia dedicado a este tema (15 de Junho) – e a mesma precisa da atenção dada, em tempos, à violência doméstica, distinguindo-se desta para ser devidamente tida em conta e valorizada.

É alarmante quando percebemos que, antes dos lares e das instituições que se dedicam a estas pessoas (mesmo que pouco vocacionadas para o mesmo), estes abusos são sobretudo praticados por familiares, muitas vezes os mais directos – os filhos – os mesmos que deveriam ser fonte de afecto, carinho e cuidado para com os seus anciãos.
Ouvi, algures, que muitas vezes uma mãe, um pai, criam dez filhos e demasiadas vezes, também, dez filhos não são capazes de cuidar de um pai, de uma mãe.

Fiquei mais incrédula nesse dia por perceber que há avós como os meus a sofrerem crueldades.

Não sei se esta sociedade se safa. Tenho dito.

O que quer que [eu] seja hoje, também há-de ser a casa do Oscar.

A casa do Oscar

A casa do Oscar era o sonho da família. Havia o terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.

Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e sai batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguazes, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquale casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.

Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando a minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é a casa do Oscar.

Chico Buarque (por ocasião dos 90 anos do arquitecto)

oscar_niemeyer

Dos dias.

Explicação do sorriso

“A mãe disse-lhe escreve-me / De lá de longe para onde vais / E ela disse não é longe casar / E a mãe sorria cega de dor / E parecia de deslumbramento.”

Mais dor menos dor todos os dias vão bater naquele Domingo em que eles ficaram parados a acenar tristeza sob o candeeiro, enquanto a marcha atrás se dava e eu, toda uma angústia inexplicável, chorava sem esforço e me afastava, para nunca mais ser tudo igual.

A véspera quis-se o primeiro dia das nossas vidas e foi. Para o bem e para o mal, houve uma página que se escreveu e outra que se virou repleta de esperanças várias, planos e expectativas. Mas também se rasgou um cordão onde corriam certas as certezas do ninho.

A vida começou a doer-me aos vinte e cinco e, ciente que não mais deixará de pesar-me, mais me doem os dias que vão passando irreversíveis, irreparáveis e ausentes desta agonia.

Amanhã será outro  dia. E temos sempre amanhã.