Lemas para a tua vida #4

Menina assenta o passo / sem medo ou manha, / ou muito te passa da vida. / Tem que a ver quem faça / o que muito queira. / Caminha sem falsa fascinação. / O teu coração / ainda pára, / forçando a apatia p’lo medo de dançar. / Não se avista um dia / em que o ego não destrate / uma mais bela parte / escondida em ti. / Menina sê quem passa p’ra lá da ideia. / Quem muito se pensa fatiga. / Nem vais ver quem são, / seus olhos no chão, / os que andam p’ra ver-te vencida a ti. / O teu coração / sem querer dispara / força e simpatia ao Ser que te vê dançar. / Vai chegar o dia em que o medo não faz parte / e, por muito que tarde, esse dia é teu. / Desfaz o Nó, / destrava o pé, / desmancha a traça e avança. / chocalha o chão, / esquece os que estão, / rasga o marasmo em ti mesma. / Vê corações, / na cara que pões, / vira do avesso esse enguiço. / Desamordaça a dança pra te convencer. / O teu coração / sem querer dispara / força e simpatia ao Ser que te vê dançar. / O teu coração ainda pára, / forçando a apatia p’lo medo de dançar.

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Great songs #1

Oh my, I didn’t know what it means to believe
Oh my, I didn’t know what it means to believe

But if I hold on tight, is it true?
Would You take care of all that I do?
Oh Lord, I’m getting ready to believe.

Oh my, I didn’t know how hard it would be
Oh my, I didn’t know how hard it would be

But if I hold on tight, is it true?
Would You take care of all that I do?
Oh Lord, I’m getting ready to believe.

Then we’ll be waving hands singing freely
Singing standing tall it’s now coming easy
Oh no more looking down honey
Can’t you see?
Oh Lord, I’m getting ready to believe

Then we’ll be waving hands singing freely
Singing standing tall it’s now coming easy
Oh no more looking down honey
Can’t you see me?

Oh Lord, I’m getting ready
Oh Lord, I’m getting ready
Oh Lord, I’m getting ready to believe

Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui

Ruy Belo, Toda a Terra Todos os Poemas

Assírio & Alvim 2000

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Não podemos ter a certeza de nada.

Somos todos iguais na fragilidade com que percebemos que temos um corpo e ilusões. As ambições que demorámos anos a acreditar que alcançávamos, a pouco e pouco, a pouco e pouco, não são nada quando vistas de uma perspectiva apenas ligeiramente diferente. Daqui, de onde estou, tudo me parece muito diferente da maneira como esse tudo é visto daí, de onde estás. Depois, há os olhos que estão ainda mais longe dos teus e dos meus. Para esses olhos, esse tudo é nada. Ou esse tudo é ainda mais tudo. Ou esse tudo é mil coisas vezes mil coisas que nos são impossíveis de compreender, apreender, porque só temos uma única vida. 

José Luís Peixoto, Abraço