10 Meses

Daqui a nada havemos de andar a amparar os teus passos atrapalhados. Todos os dias és um bocadinho menos bebé e eu também fico atrapalhada com essa ideia.

Este há-de ser o teu primeiro Natal e, pela primeira vez desde há muito tempo, a um mês e meio do Natal tenho vontade de começar já a pendurar luzes pela casa. Mal posso esperar pela mesa grande e farta de gente.

Há 1 ano eu estava radiante de entusiasmo. Hoje é um daqueles dias em que ainda me custa a acreditar que sejas verdade.

Já sabes onde mora o juízo, pedes papa e já te sai papá e mamã  de quando em vez.

Ris-te com tudo para o teu pai como não fazes para mais ninguém, o que já promete uma paixão assolapada pelo papá. E o que eu gosto que seja assim.

Cresce devagarinho, meu Amor. Não cresças mais depressa do que nós que ainda temos tanto caminho para fazer.

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Os teus nove meses trouxeram a primeira febre e o primeiro ranho e a primeira tosse. Já lá vão três semanas de maleitinhas várias que te tiram o apetite e te deixam mais tristonha…

Sabe que não tiras grandes vantagens de a mãe ser médica: o meu rigor científico é comparável ao da doutora brinquedos quando se trata de ti. Não há meios termos, bom senso, razoabilidade. Salto constantemente entre a hipervalorização e a desvalorização total de sinais e sintomas e no meio fico insegura e e irritada. No primeiro dia de febre penso numa infecção urinária, no segundo dia numa pneumonia… talvez fosse melhor levar-te à urgência para seres vista por médicos a sério…ou talvez não justifique. Ou, ou, ou.

Lembro-me das vezes sem conta em que sugeri a outras mães que “esta tosse e este ranho só precisam de lavagem eficaz do nariz, muitos líquidos e de uma elevação da cabeceira da cama” e “vomita com a tosse? É perfeitamente normal…” O quê? Perfeitamente normal? Talvez perfeitamente desesperante.

Havemos de sobreviver ao Inverno, meu amor.

Mãe.

Que sim.

Tesouro,

Escrevo para não me esquecer do cheiro que fica na casa depois do teu banho; escrevo para um dia me cobrares a tua colónia – uso e abuso dela todos os dias de manhã;

Escrevo para te dizer que há momentos – como os que partilhaste hoje com os teus bisavós – que mereciam de tal forma ficar registados que não me atrevo sequer a perturbá-los com um flash. Tenho registado momentos especiais mas é impossível guardar momentos únicos: conto que cresças com o tempo de os recordares por e para ti.

Escrevo para te lembrar que me peguntes pelos dias de que não terás memórias ainda que eu acredite profundamente que estes dias te transformam e te constroem. Uns atrás dos outros.

Escrevo para te contar que só hoje me deste uma noite pior: quase oito meses e meio depois. Uma noite de nariz ranhoso que não nos deixou descansar como de costume. O que posso pedir mais?

Saúde. Muita saúde. Que nos fiquemos por diarreias e narizes ranhosos porque não sei como se resiste ao sofrimento de um filho.

Estás numa fase maravilhosa. Finalmente sosseguei em mim as saudades desmedidas e angustiantes dos primeiros tempos – foi tudo tão novo e tão bom.

A bebé menina que eras dá lugar a uma boneca maravilhosa todas as manhãs: a tua energia e curiosidade são comoventes e eu consigo, agora melhor, deixar que o tempo passe sem sentir que estou a perder alguma coisa mas que ganho incomparavelmente mais.

O tempo é tramado, minha pequena. E não pára, graças a Deus.

Agora, mais do que nunca, passas o tempo a acenar que sim com a cabeça. Aprendeste o sim antes do não e é com o sim que negas a fruta antes da sopa. É com o sim que respondes às nossas perguntas mais tolas. Aproveito essa tua resposta universal para te perguntar vezes sem contas se nos amas e se acreditas na nossa parentalidade insegura e inexperiente. Como se soubesse das tuas respostas…

Quero ensinar-te a gratidão que tenho por tudo o que temos e somos. Às vezes acho que nos foste dada segundo a medida das nossas capacidades – isto para o bem e para o mal – talvez merecessemos tão boa filha, talvez não fossemos capazes de mais se assim não fosse(s). Talvez.

Mas o que importa é que começaste por dizer que sim e enquanto não aprenderes o não hei-de perguntar-te muitas vezes se nos amas.

Escrevo para dizer à menina de um ano, e à de cinco prestes a entrar na escola, e à adolescente que hás-de ser, e à crescida com os vinte e sete anos que estou prestes a cumprir que és a minha vida antes de tudo. Que és a nossa vida, sem dúvida.

Escrevo para te prometer o mundo. Aceno-te que sim com a cabeça.

Estaremos para sempre contigo.

Achamos que o pai passa por aqui em noites de urgência à procura de algumas palavras.

Hoje queremos dizer-lhe que o amamos muito. E que temos orgulho. E saudades.

Domingo fazes oito meses. Nestas últimas semanas nasceram-te dois dentes incisivos marotos e começaste na creche.

Imprevistos de última hora levaram-nos a confiar-te num sitio que não era a primeira opção – mas sabes, parece que há imprevistos que acontecem porque têm mesmo que se encontrar determinados caminhos. Estamos contentes. Tu ficas tranquila embora mostres bem mais alegria na hora de voltarmos a casa.

Estás cada vez mais riquinha – bonita, doce e marota. Todos os dias se apuram em ti traços maravilhosos.

E o tempo a passar a correr. Parece que foi há uma infinidade de tempo que nasceste e ao mesmo tempo não sei para onde foi esse tempo todo.

Continuo a sofrer de momentos de verdadeira perplexidade sem acreditar bem que sonho acordada como se vivesse a dormir – uma filha, tenho uma filha, tenho-te filha, repito até à exaustão. Eu, tão pequena e tão filha ainda, uma filha.

Os dias são tão mas tão melhores depois de ti. Nada passou a correr pior depois de ti. As “doidas doidas doidas [das] galinhas” tomaram o lugar de pensamentos mais tristes, das organizações mentais ou das revisões de última hora de manhã.

Tarefas simples, não urgentes, ganharam estatuto de inadiáveis. Assuntos importantes, obrigações e trabalhos adiam-se e trocam-se por colos e palminhas e eternidades para meia dúzia de colheres de sopa. E a vida vai seguindo neste desequilíbrio funcional.

Não dispenso a tua companhia e os sete minutos que demoramos até à creche – és uma dose de energia matinal incrível.

O coração aperta-se, um-dois-três e estás no colo da educadora, dizes “xau”, resmungas um bocadinho e enquanto te espantas com o choro dos outros meninos eu escapo-me, sorrateira, não sem antes te entregar à “Mãezinha do Céu”.

Grande parte da nossa tranquilidade está na certeza de que ficas nas melhores mãos.

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[Amanhã] 7 meses

Sete meses, quatro tamanhos de fraldas, muitas marcas de leite e duas sopas por dia depois, estamos a celebrar a entrada no teu oitavo mês de vida.

Sabe que estás cada vez mais bonita, Aurora. Parece que foi há tanto tempo que nasceste e que eras do tamanho de uma laranjinha como me diz toda a gente e, ao mesmo tempo, parece que foi ontem.

Há dias em que tenho que fazer um esforço de memória para me lembrar de ti tão pequenina e tão frágil. As tuas mãos, os teus pés, o teu beicinho pequenino em pleno Inverno. Toda tu tão pequenina. Já tão pouco resta da menina que me pousaram no peito há sete meses.

Tenho saudades. Quando ainda te carregava na barriga, e ansiava mais do que tudo conhecer-te, não imaginava que viesse a sentir saudades destas. Mas sabe que tudo tem o seu tempo e que não trocava a menina que és hoje pela que eras há sete meses se não me dessem a certeza de que era para viver (quase) tudo outra vez.

Nestes últimos dias começaste a bater palminhas quando te pedimos. Bom, não será sempre que te pedimos porque já és um sem número de vontades. Já dizes um maamãããmmm… mesmo que sem o sentido que havemos de lhe dar as duas. Repetes as sílabas ma-mã quantas vezes te apetece, sem saberes ainda que bastam duas para chorar lágrimas de felicidade para dentro e inundar o peito.

Há dois dias levei-te pela primeira vez à praia. Estava sol quando saímos mas escureceu e levantou-se o vento assim que chegámos. Nem deu para te pôr em fato de banho mas foi bom ver-te bater palminhas à água e olhar em volta como fazes em todos os lugares novos. És curiosa e o que não alcanças com as mãos procuras com os olhos. Imagino o fascínio de tantas primeiras vezes.

Adoras a Laila e o gato. A tua avó leva-te para as galinhas para comeres a sopa apesar de a preferires a tudo o resto. Continuas uma pisca e não fossem  os teus refêgos deliciosos, andaria mais com o coração nas mãos.

Ainda dormes a noite inteira – não podíamos pedir mais.

Ris-te que nem uma perdida quando brincamos às côcas. Os meu cabelo e o fio que trago de amuleto ao pescoço continuam a ser os teus entretens preferidos.

No dia 3 de Agosto celebrámos o teu Baptismo. Foi uma festa bonita na Eucaristia de Domingo da Praia da Barra onde vivemos por enquanto. Hás-de gostar do padre, pessoa-estrela, que fizemos gosto que te baptizasse. Tu portaste-te tão bem. Estiveste acordada, sossegada e atenta enquanto durou o ritual do baptismo. Depois adormeceste e ficaste assim, tranquila, até ao fim da Eucaristia. E eu olhava-te e acreditava para mim que a tua tranquilidade naquele momento não podia ser só obra do meu colo. E a tua tranquilidade é a minha.

E por mais que eu saiba e possa e tente e queira fazer por ti, pelo teu bem estar e pela tua segurança, tudo o que eu faça só vai paliando as incertezas e inseguranças que conheci contigo. A tranquilidade plena só me é possível quando te entrego todas as noites às mãos de quem realmente te guarda e te protege por seres mais um projecto seu de esperança no Mundo e no Homem.

Escolhemos-te para padrinhos o teu tio Sérgio e a tua avó Fernanda. A segunda por razões óbvias – é doida por ti. Além disso, como era costume dos antigos, vejo uma ternura inexplicável em reunir os papeis de avós e padrinhos na mesma pessoa. E como também espero conseguir ensinar-te: os antigos têm razão na maioria das vezes.

Depois almoçámos todos em casa da avó e madrinha Fernanda. Não podia ser de outra maneira. Não há lugar no mundo para se estar melhor em dias de festa do que na nossa casa, com os nossos. Quem dera que saiba mostrar-te o valor inestimável dessa riqueza.

Hoje, como noutros dias, escrevo isto para não me esquecer. Cheia de gratidão pela tua vida e por tudo o que nos trouxeste com ela.

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Tão verdade que dói. 1#

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Dormes tão sossegada sem saberes que há dias em que trocamos de lugares e sou eu a criança.

Corro em direcção ao teu quarto nestas noites em que o silêncio e o vazio se apoderam da casa e a casa se apodera de mim e é tudo tão negro, tão sozinho, tão longe.

Arranjo trabalho para migar este sufoco, mas a cabeça foge-me.

Fujo em direcção ao teu quarto e imagino-me a aninhar-me contigo na cama a choramingar de medo deste escuro ou das dores de crescer.

O que hás-de ser é o colo que tens para mim nestes dias cobardolas e medricas.

O futuro é um papão muito grande e o presente é o homem do saco que me há-de vir buscar se não fizer as coisas bem feitas. E há dias em que não me apetece comer a sopa, Aurora.

Há dias em que a sopa é ruim – estará azeda – e não cai bem. Mas depois o homem do saco, Aurora. E a sopa arrefece. E eu engulo colherada atrás de colherada e fico farta.

Ontem enquanto eu carregava no dispensador do teu creme de banho com uma mão, e te segurava só com a outra, tu (ao mesmo tempo) tentaste alcançar um brinquedo na água e escorregaste-me durante o banho. Bateste com a testa na borda da banheira. Choraste com lágrimas. Tu, que só choras com as vacinas. Eu afligi-me tanto que achei que morria. Num segundo era um banho de todos os dias e noutro todas as minhas seguranças e certezas se esvaíram com a água por aquele ralo da banheira. Toda eu, por aquele ralo. Direita ao esgoto.

Eu, mãe, a querer chamar pela minha mãe. Eu, mãe, a saber que nunca mais hei-de ser só filha. Eu, mãe, pequenina, pequenina, a suplicar que alguém me dê a mão para atravessar esta ponte que tenho medo de alturas. Eu, mãe, no arrastado segundo que demorou virar-te para mim, a fazer promessas para que não tivesses aberto nenhum lenho na testa. Eu, mãe, a agradecer não ver sangue. Eu, mãe, a fazer mais promessas para que não tivesses batido com o olho. Eu, mãe, a agradecer ver o resultado da pancada a aparecer no sobrolho enquanto te secava e te vestia qualquer coisa. Eu, mãe, a suplicar que o teu choro fosse da fome e do sono que já tinhas antes do banho. Eu, mãe, a tremer  enquanto punha uma pedra de gelo dentro de uma meia tua. Eu, mãe, a tremer mais porque tu não querias gelo na testa. Eu, mãe, com terror que tu adormecesses, apesar de serem horas de dormir. Eu, mãe, e a sensação de ser a pior mãe do mundo.

Já te disse que contigo nasceu um medo tão grande que às vezes me engole e me atira para o lado de lá?

Coisas que te vou querer contar e das quais não me posso esquecer #13

Coisas que te vou querer contar e das quais não me posso esquecer #13

Ontem descobriste que podes brincar com os teus pés. Desde então desdobras-te, literalmente, em manobras de controcionismo para os agarrares com as mãos e os levares à boca.
Podia escrever-te umas metáforas sobre os teus pés. Dizer-te que eles vão servir para fazeres o teu caminho. Que com eles te hás-de aproximar e afastar de quem te quiser bem e de quem não te quiser assim tão bem. Os teus pés hão-de estar sempre lá para te levar onde quiseres, por mais longe e mais difícil que seja. Os teus pés vão permitir os teus primeiros passos quando tiver que ser. Eu vou segurar-te as mãos, amparar-te as quedas e depois chamar-te e esperar-te ao longe para que caminhes sozinha na minha direcção. Por toda a vida a admirar-te nos passos que deres. Imensamente grata pela imensidão de gente que já és. Minha filha.