aurora

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Obra Poética”

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Coisas que te vou querer contar e das quais não me posso esquecer #13

Coisas que te vou querer contar e das quais não me posso esquecer #13

Ontem descobriste que podes brincar com os teus pés. Desde então desdobras-te, literalmente, em manobras de controcionismo para os agarrares com as mãos e os levares à boca.
Podia escrever-te umas metáforas sobre os teus pés. Dizer-te que eles vão servir para fazeres o teu caminho. Que com eles te hás-de aproximar e afastar de quem te quiser bem e de quem não te quiser assim tão bem. Os teus pés hão-de estar sempre lá para te levar onde quiseres, por mais longe e mais difícil que seja. Os teus pés vão permitir os teus primeiros passos quando tiver que ser. Eu vou segurar-te as mãos, amparar-te as quedas e depois chamar-te e esperar-te ao longe para que caminhes sozinha na minha direcção. Por toda a vida a admirar-te nos passos que deres. Imensamente grata pela imensidão de gente que já és. Minha filha.

Os teus cinco meses.

Escrevo para não me esquecer.

Escrevo para me lembrar de como foram preciosos estes meses.

Não fossem uns dias de férias a seguir à licença e hoje já teria regressado ao trabalho.

Hoje, enquanto te dava a sopa, e naquela fase – muitas vezes logo a seguir à quarta ou quinta colherada – em que ficas com a boca aberta mas cheia de sopa e já não engoles e ficas ali a engonhar e a engonhar e a engonhar concluí que é isso que estou a fazer com as papas em que está mastigado o meu coração. Não sei como vou resistir a deixar-te todos os dias. A certeza de estar a aproveitar-te o mais que posso não diminui em nada esta angústia.

Já tentei falar-te do tamanho deste amor. Se for rever outros posts concluo que me repito, mas este amor não tem tamanho mesurável, não tem palavras que o traduzam verdadeiramente, não me cabe no peito e ao mesmo tempo engole-me como um buraco negro.

Mas depois o tempo pára.

O tempo pára quando te vejo a dormir tranquila. Os traços da perfeição nas tuas maçãs do rosto, na tua boca, nos teus olhos, no teu queixo doce. Os teus suspiros. Dormes tranquila e eu posso sossegar o coração. Estás bem.

As histórias do mundo não são sempre felizes, meu amor. Há pais que perdem meninos para as doenças, para os azares, para sabe-se lá o quê que não se compreende. Contigo nasceram o medo e o pavor de todas essas coisas. Medos difíceis de gerir, nós na garganta quando uma história dessas se atravessa num qualquer momento do nosso dia.

Estás tão extraordinariamente bonita.

Já te sentas com apoio, é na boca que descobres o que já não tem segredos para os teus olhos e para as tuas mãos, ris-te muito, ris-te muito para a tua avó Fernanda, és um peixinho dentro de água na hora do banho. Enches o meu dia de certezas e de anseios. És já uma companheira. Gostas de beijos nos pés, na barriga e no pescoço. Encolhes-te de cócegas enquanto soltas gargalhadas. As noites continuam completas e os despertares os mais maravilhosos. Não há sono ou má disposição matutinos que resistam aos teus olhos e sorriso, abertos e vivos, cheios de propósitos. Há em ti magia, sobrenaturalidade pela manhã. Olho-te, incrédula. Como naquele filme em que todos os dias a personagem acorda para a mesma situação, repetida mas nova.

Acordo. Levanto-me. Normalmente tenho que tirar o teu pai da cama à força (das palavras). Vou à casa de banho. No caminho para a cozinho entreabro a porta do teu quarto – ainda dormes, não estás enfiada debaixo dos cobertores até à testa ou mais ainda – encosto a porta, acho que ainda durmo. Aquecemos o leite, reforçamos o café. Preparo-te o biberão que só vais beber pela metade – hei-de ter que insistir toda a manhã para ires bebendo o resto até à hora da sopa. Estou acordada. Volto ao teu quarto. À medida que abro a porta revela-se um quarto de bebé cheio de pormenores que podiam ter sido meus. Há um quarto de bebé neste apartamento que habitamos há meia dúzia de dias desde que casámos. Espera. Passou um ano e meio. Os pormenores do quarto são mesmo meus. Há uma bebé no quarto, letras alinhadas na cómoda das roupinhas de gavetas forradas a papel de embrulho revelam-me que se chama Aurora. Aurora. Lembro-me de um dia, num centro comercial do norte, ter feito o teu pai assinar um compromisso de chamar Aurora a uma filha – tão longe estávamos da ideia de filhos. Aurora. Um nome que nos enche a boca e transborda e se projecta. AU-RO-RA. Repito. AU-RO-RA. Abro ligeiramente a cortina para deixar entrar a luz.

Essa luz pousa-se sem vergonha nas formas tão desenhadas do teu rosto. Essa luz revela-te e eu aprecio-te, ainda antes de te dar o biberão a beber porque o bebes ligeiramente melhor se a dormir. Quando acordas o teu quarto é todo um mundo novo e as tuas mãos pequenas já tiram o biberão da boca cheias de certezas e de quereres. É para os pormenores do teu quarto que queres olhar. Beber o leite pode adiar-se. Há um pom-pom de papel que sobrou do nosso casamento pendurado no teu candeeiro. As tuas fotografias alinham-se na parede à espera de moduras brancas. Do mobile do teu berço dependuram-se cinco passarinhos feitos a muitas mãos familiares. Da tua cómoda vela-te a Nossa Senhora de Fátima que me comprou a minha bisavó e que recuperei para ti. Há ainda uma Nossa Senhora do Ó que a tua avó Fernanda me ofereceu ainda te esperávamos. Há a colcha cheia de cores que ela te fez. Há o senhor Coelho, miminho indispensável na hora de dormir. Há o hipopótamo Chico, o pato Chico, o Zézinho.

A tua bisavó Lourdes tratou de baptizar todos os bonecos da Chicco de Chicos. O Zézinho escapa, não é da Chicco, baptizei-o eu.

A tua bisavó Lourdes lida contigo como se tivesse acabado de nos criar ainda ontem. A tua chupeta chama-se “pepê” porque ela entendeu que seria assim. Diz-te que quando fores maior vais tirar os ovos aos “pipis”.

Estão todos tão melhores depois de ti. Tão mais bonitos, tão mais novos, tão mais felizes. Não me lembro da última vez em que disseram alguma coisa como “isto agora qualquer hora é boa”, deixas recorrentes a propósito do avançar da idade.

Não me surpreende a paixão da tua avó Fernanda por ti. Já a esperava. Só confirma que antes de ser a melhor avó do mundo é a melhor mãe também. Tenho tão pouco jeito para lho dizer e demonstrar. Conto que ela o saiba. Depois de ti é inevitável ir fazendo o exercício de me colocar no lugar dela em inúmeras situações. Penso muitas vezes nela com a minha idade quando me teve. O que teria feito quando eu ficava com a boca cheia de sopa como tu, se lhe teria dado boas noites também, como se safava connosco pequenos, sem o teu avô cá. Olho para a forma como dá e faz tudo o que tem e pode e lembro-me que esta vida é um ciclo bonito, que a tua bisavó muito provavelmente fez o mesmo por ela e tenho a certeza que o farei por ti também.

Surpreende-me e enche-me de alegria o teu avô Zé. Perde-se e revela-se contigo. Rejuvenesceu 20 anos.

Sei que somos uns para os outros os melhores presentes, seja em que circunstância ou comemoração for.

Rezo para que a vida nos dê oportunidade de nos gozarmos uns aos outros durante muito tempo. Quero muito os meus avós comigo, os teus bisavós e os teus avós contigo. Quero que cresças nessa riqueza que é tê-los. Eles são os melhores lugares, as melhores viagens, o melhor livro, os melhores brinquedos, o melhor restaurante, as melhores histórias.

Vocês são presentes uns para os outros.

A mim basta-me olhar-vos, grata e silenciosa, sorrateiramente, da soleira da porta.

Olhar-vos. A vocês e à magia com que se desembrulham.

5 MESES

4380 dias.

Hoje escrevo para o teu pai por passarem 12 anos sobre o dia em que nos conhecemos. Hoje sexta-feira, dia 13, passam exactamente 12 anos sobre uma outra sexta-feira dia 13.

Eu tinha feito teste de físico química e, sinceramente, se havia superstição era sobre isso mesmo.

Não sei se correu bem. Há-de ter corrido. Entre nós correu, apesar dos caminhos tortuosos.

Não me lembro bem se já imaginava alguma coisa para hoje há 12 anos – esperava o tal rapaz, como provavelmente outras miúdas da minha idade. E o tal rapaz apareceu com uns apontamentos de Anatomia amassados debaixo do braço (devia querer impressionar), uma camisa cinzenta e o cheiro dele – quase posso jurar que ainda tenho na memória o cheiro dele.

Na manga trazia este poema:

 

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.

 

E foi embora no fim da hora de almoço para voltar e ficar para sempre.

 

Coisas que te vou querer contar e das quais não me posso esquecer #12

Dizem-me desde o início da gravidez que tenho que aproveitar este e aquele tempo, que passa num instante, que quando der por ti estarás tão crescida que me perguntarei como foi possível.

E eu tenho aproveitado. Mesmo muito. A sério. Nestes quase cinco meses fartámo-nos de rir, dei-te todo o colo que as minhas costas permitiram, adormeci-te, cuidei para que nada te faltasse, lembrei-me, a cada banho, que todos os dias alguém me diz que tenho que aproveitar bem este tempo porque passa num instante. E o que tu gostas de tomar banho! Ouvimos música boa, cantei-te mal música suficientemente má para soltares gargalhadas, cobri-te de beijos e quase te afoguei em abraços a que ainda não sabes retribuir. Olhei-te tantas e tão demoradas vezes que, se me tivesse lembrado, ter-te-ia contado as pestanas.

Há uns dias deixamos-te pela primeira vez dois dias inteiros em casa da avó Fernanda. À tua avó Fernanda entrego-te de coração tranquilo. Sei que te posso confiar e fiz o esforço. Deixei umas dicas de horários e pequenas manhas que já vais tendo: de manhã bebes o biberão por duas vezes, tentar dar-te a sopa sem teres dormido antes pode ser uma guerra bem inglória, às nove e à meia-noite já bebes o leite a dormir, entre outras…

Apesar de ter ido totalmente tranquila a tua ausência foi um pequeno sufoco. Não estares ali a requerer a minha atenção a todo o momento poderia ter sido bom mas, sinceramente, não foi. Já não sei ser sem ti. Sem o teu sorriso, sem os teus olhos lindos, sem a tua conversa tonta.

Não exagero se disser que sinto a tua falta enquanto dormes profundamente. Quando começar a trabalhar sei que será precioso o tempo entre os teus dois últimos biberões do dia. Apesar de saber que não vai ser fácil, a coragem (não é bem coragem, mas não sei que chamar a este achar que tudo é possível) e a segurança para (quase) tudo, que conheci enquanto estava grávida, persistem.

Tantos lugares comuns: fazer tudo (mas mesmo tudo) por um filho, não existir qualquer medo e ao mesmo tempo viver aterrorizada por não ter garantido que vai tudo correr bem, que vais crescer saudável e feliz, conhecer um amor infinito que não acaba, que não pára de crescer. Percebo-os tão bem agora.

Há dias em que ainda não acredito que tu estás mesmo aqui. Será vulgar dizer que parece que sonho, que a qualquer momento acordo e volto a ser a rapariga de vinte e cinco anos que era há um ano e que ia vivendo. Olho-te. Única e irrepetível. Parece que foi ontem que não existias. Hoje estás aqui, no meu colo, com mais de seis quilos. Sinto-te. Cheiro-te.  Aperto-te. Existes. És real. Os teus olhos castanhos que não são de mais ninguém, os teus dedos pequenos com as tuas impressões digitais únicas, as tuas feições, as tuas bochechas tão doces estão encostadas a mim. Que coisa soberba e indescritível, que milagre grande.

Comovo-me tanto contigo.

O melhor do meu dia continuam a ser os teus despertares. Não sei onde arranjas tanta boa disposição. Os teus olhos são enormes pela manhã. O biberão é a última coisa que queres – na verdade é uma pequena luta o teu primeiro biberão. Tudo te desperta interesse no quarto de todos os dias que deve ser novidade para ti todas as manhãs: os passarinhos do mobile, as estrelas da cortina, a caixinha de música…

Sabe que há dias que só são possíveis assim, depois do teu sorriso aberto e grande.

Quatro meses.

Esta madrugada hás-de completar quatro meses de vida. Já to disse: não me canso de reviver esse dia. Agora com saudades, nostalgia, mesmo. Foi tão bonito. O que eu não dava para voltar ao 14 de Janeiro de 2014 e registar todos aqueles pormenores que escaparam porque era de madrugada, porque estava exausta, porque apesar da magia não é totalmente possível ignorar algumas dores e algum cansaço.

Tenho saudades tuas ainda na minha barriga. E da companhia que éramos uma para a outra a todo o instante. Foram tão boas essas 39 semanas e 5 dias de exclusividade.

Quatro meses depois não sei onde ficou a bebé que mamava e imediatamente adormecia no meu peito. Cada manhã te encontro maior e mais bonita. Já se definem em ti muitos traços de uma personalidade que consigo adivinhar malandra, travessa, curiosa.

Continuas um bom feitio nunca antes visto. Poucas, quase nenhumas, muito esporádicas birras. Todas ao domingo, aquele dia comprido, de muitas visitas e muitos colos de que, às vezes, também te cansas.

Não és tão comilona como seria desejável para me tranquilizar e não andar sempre preocupada com o teu peso. Já consigo relaxar mais, deixar-te mamar o que bem entendes e não insistir tanto contigo. És de pouco sustento, minha rica filha. Não sei a quem sais nesse aspecto.

Bom, continuas a acordar de sorriso rasgado quando estou lá. Por outro lado, já não achas assim tanta piada a acordar sozinha das pequenas sestas que vais fazendo ao longo do dia.

Há uns dias chegou-te a tua primeira constipação. Não chegaste a ter febre, mas andaste muito ranhosa e de olhos rasos de água – ainda assim mantiveste a tua boa disposição. És um amor.

Sabes, começo a sofrer por antecipação com o aproximar do final da licença de maternidade. É inevitável regressar ao trabalho e tu vais ter que conhecer o infantário depois das férias da avó. Começo a pensar que te vou entregar num sítio logo de manhã para só te ir buscar ao fim do dia. Atendendo a que a tua noite de sono começa por volta das nove da noite para só terminar na manhã seguinte, parecem-me muito poucas horas para as nossas brincadeiras e palhaçadas. Vou morrer de saudades das nossas conversas, das tuas risadas já tão sinceras, cheias de não sei bem o quê que me enche o coração.

Não te sei dizer o tamanho deste amor que desta maneira leva já quatro meses e todos os dias é maior e maior e mais capaz de levar tudo para a frente.

És a minha Aurora, com tudo o que isso significa.

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